Leucemias
O sangue é composto por uma porção líquida, o plasma, e de células (elementos figurados) de três tipos básicos: os glóbulos vermelhos (hemácias), glóbulos brancos (leucócitos) e as plaquetas. Estas células passam por diversos estágios de desenvolvimento, antes de atingirem a maturidade. As leucemias são os tumores derivados destas células precursoras, que ainda não atingiram a maturidade.
A observação das células anômalas em um hemograma (blastos), ou o predomínio excessivo de um determinado tipo celular (linfócitos, precursores de neutrófilos) sugerem uma leucemia. Em todos os casos se fazem necessários exames de medula óssea (mielograma, biópsia) para confirmações, sendo ainda freqüentemente necessários outros estudos complementares, como a imunofenotipagem e a citogenética (cariótipo). Toda a investigação e tratamento devem ser conduzidos pelo médico hematologista.
As leucemias dividem-se basicamente em agudas e crônicas, e em mielóides e linfóides. Portanto, temos 4 tipos principais:
Leucemia Mielóide Aguda: é uma doença geralmente bastante grave, agressiva, que pode causar queda no número de glóbulos brancos, de glóbulos vermelhos (anemia) e das plaquetas; ou ainda elevação de glóbulos brancos com presença de células imaturas. Pode atingir qualquer faixa etária. O paciente muitas vezes apresenta infecções, sangramentos, febre e cansaço. O tratamento consiste de quimioterapia, transfusões de sangue e plaquetas, antibióticos, em geral sendo necessária internação. Em determinados casos há indicação de transplante de medula óssea;
Leucemia Linfóide Aguda: é a leucemia mais comum na infância, quando tem excelente prognóstico. Pode, porém atingir também outra faixas etárias. Como a anterior, pode também ser uma doença agressiva, ocasionando os mesmos transtornos sanguíneos e clínicos. Também seu tratamento inclui quimioterapia (em geral prolongada), tranfusões e antibióticos, entre outros. Em alguns casos pode ser necessário o transplante de medula óssea;
Leucemia Mielóide Crônica: doenças mais comum após os 50 anos, é bastante indolente, em geral manifestando-se com um acentuado aumento dos leucócitos e às vezes de plaquetas. Geralmente o paciente tem poucos sintomas; um deles pode ser desconforto abdominal, por aumento do baço. O tratamento inclui quimioterapia oral, alfa-interferon, e atualmente o novo medicamento STI571 (mesilato de imatinib). O transplante de medula óssea é uma alternativa terapêutica que pode ser curativa;
Leucemia Linfóide Crônica: doença em geral observada nos idosos, é bastante indolente na maioria dos casos, causando poucos sintomas. Às vezes a suspeita vem de um hemograma solicitado apenas para um "check up" periódico ou pré-operatório. Em alguns casos, porém, pode ser mais agressiva, causando aumento do fígado, baço e gânglios linfáticos ("ínguas"), sudorese, febre e perda de peso. No sangue em geral há um aumento acentuado do número de linfócitos (um dos subtipos de glóbulos brancos). O tratamento nem sempre é necessário, pois em casos iniciais não leva a benefício algum, conforme comprovado no mundo todo por inúmeras publicações. Quando indicado, inclui quimioterapia (oral ou venosa), antibióticos, e às vezes transfusões, corticóides e imunoglobulinas.
Linfomas
Os linfomas são tumores que se desenvolvem a partir de gânglios linfáticos, ou de áreas que contenham células semelhamentes às dos gânglios (p. ex., intestino, estômago, vias aéreas, etc.). Um ou mais gânglios aumentados (popularmente chamados de "ínguas"), não dolorosos, às vezes acompanhado de febre, suores noturnos e perda de peso compõem o quadro clínico mais comum destas doenças. Podem surgir em qualquer idade, e em alguns raros casos atingir outros órgãos (pulmão, sistema nervoso, pele). Mais comumente restringem-se aos gânglios linfáticos, baço e fígado, e esporadicamente infiltram a medula óssea.
O termo genérico "linfoma" na verdade engloba uma ampla gama de tumores do sistema imunológico, dividindo-se basicamente em 2 grupos: linfomas não-Hodgkin (LNH) e linfomas de Hodgkin (LH). Em todos os casos o diagnóstico exige confirmações através de biópsia na área envolvida, complementada sempre que possível por imunohistoquímica. Uma vez confirmado, é realizada uma série de exames para o estadiamento tumoral, que visa avaliar a extensão da doença. Entre estes exames, tomografias, ultrassonografias, biópsia de medula óssea e exames de sangue (DHL, albumina,etc.).
O tratamento dos linfomas é muito diversificado, de acordo com o subtipo identificado, e deve ser conduzido por um hematologista. Atualmente, além da quimioterapia convencional, do suporte transfusional e de antibióticos, existem outras alternativas de grande importância, como os anticorpos monoclonais, medicamentos que combatem seletivamente as células cancerosas com mínimos efeitos colaterais. Uma opção cada vez mais usada e fundamental no tratamento de linfomas é o transplante autólogo de medula óssea (TAMO). Consiste na coleta de células medulares (através de um processo denominado aférese) durante o período de controle (remissão) do tumor, sendo estas células congeladas a seguir. Posteriormente, o paciente submete-se a altas doses de quimioterapia, visando eliminar totalmente qualquer resíduo tumoral. Tais doses poderiam provocar danos muito profundos à sua medula óssea; nesta etapa é então devolvida a ele sua medula anteriormente coletada e congelada, o que leva rapidamente à sua recuperação, concretizando o TAMO. Este procedimento permite, portanto, o uso de quimioterapia em doses bem maiores que as convencionais sem prejuízo ao paciente, elevando acentuadamente suas possibilidades de sucesso terapêutico. Deve ser realizado por hematologista com experiência na área.
Mieloma múltiplo e Plasmocitomas
O mieloma múltiplo é um tumor originário da medula óssea, a partir do crescimento anômalo de uma das células do sistema imunológico, o plasmócito. É uma doença observada comumente após os 50 anos. A doença provoca geralmente destruição óssea, levando à dor e às vezes fraturas e pequenos traumas. As células tumorais produzem uma proteína anormal (gamaglobulina monoclonal), que pode ser detectada no sangue e na urina. Esta proteína em excesso, aliada a um aumento dos níveis de ácido úrico e cálcio (pela lesão óssea), provoca um dano aos rins, progressivo e grave. A situação pode ser piorada se há infecções, devido à paulatina queda de imunidade do paciente. Com a medula óssea afetada e os rins danificados, e lembrando que estes têm uma função essencial no estímulo da produção dos glóbulos vermelhos, a grande maioria dos pacientes acaba apresentando anemia.
O mieloma nem sempre atinge todo o esqueleto. Quando localizado em um único osso é chamado plasmocitoma solitário. Se localizado em uma área fora do esqueleto (p.ex., intestino, pulmão, seios da face, faringe), chamamos plasmocitoma extra-medular.
O diagnóstico do mieloma é complexo, e exige a confirmação da presença dos plasmócitos anômalos, seja por biópsia da área afetada, seja por punção da meduçla óssea (mielograma). Deve-se ainda demonstrar a presença da proteína anormal e/ou as lesões ósseas. Há tabelas com critérios diagnósticos específicos, e outras para estadiamento da doença, que permitem avaliar sua extensão e seu prognóstico.
O tratamento do mieloma múltiplo deve ser conduzido por um médico hematologista, e envolve o controle da anemia, das lesões ósseas, da insuficiência renal, e o combate direto às células tumorais. Este é realizado através da quimioterapia (oral ou venosa) e, quando possível, do transplante autólogo de medula óssea (TAMO), elemento terapêutico importantíssimo no tratamento dessa doença, levando a um ganho na sobrevida e na qualidade de vida. Em certos casos, há indicação ainda de outras alternativas, como a talidomida oral e a radioterapia. Apesar de todas estas opções, na maioria das vezes o mieloma é passível de controle prolongado, mas raramente de cura definitiva.
Fonte: Serviço de Hematologia e Hemoterapia-http://www.shhsjc.com.br/siteshh.htm